Atenção Primária no Brasil em 2025: o que muda e por que dados estruturados viram prioridade nacional

atenção primária no Brasil

A Atenção Primária à Saúde (APS) sempre foi o “coração” do SUS. É na Unidade Básica de Saúde (UBS) que a maior parte das necessidades de saúde da população é acolhida, acompanhada e resolvida. A Estratégia Saúde da Família, consolidada ao longo de 30 anos, fez o Brasil ser apontado por organismos internacionais como um exemplo de APS forte, organizada e com foco comunitário. Mas 2025 marca um ponto de inflexão: além de ampliar acesso e qualificar equipes, o país passa a olhar para algo que, até pouco tempo, era “detalhe técnico” – a forma como os dados são coletados, registrados e utilizados no dia a dia da atenção primária. Com novas regras de financiamento, exigências legais e uma estratégia nacional de saúde digital em execução, dados estruturados saem dos bastidores e viram prioridade estratégica nacional (Biblioteca Virtual em Saúde MS). Esse movimento está alinhado às tendências exploradas em conteúdos como: Hospital Inteligente Futuro da Saúde Digital Medicina Preditiva Segurança de Dados em Saúde Digital Internet das Coisas Médicas (IoMT) A convergência entre APS + dados + digitalização + qualidade faz 2025 ser mais do que um ano de mudanças: é a reorganização completa de como o cuidado é registrado, monitorado e financiado. A seguir, vamos entender onde estamos, o que muda em 2025 e por que registrar bem (e de forma estruturada) deixou de ser opcional para equipes, municípios e gestores. Onde estamos em 2025: o retrato da APS brasileira A APS no Brasil é organizada em torno da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS/MS), com a Estratégia Saúde da Família como modelo prioritário. Segundo o Ministério da Saúde, a APS é o primeiro nível de atenção e integra promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e redução de danos, com foco na integralidade e no território (Serviços e Informações do Brasil). Em 2024 foi realizado um Censo das Unidades Básicas de Saúde, com resultados preliminares divulgados em 2025. O levantamento, conduzido pela SAPS/MS em parceria com Abrasco, Conass, Conasems e OPAS, mostrou um quadro misto: avanços importantes na cobertura e na disponibilidade de profissionais, mas também desigualdades regionais, problemas de infraestrutura e desafios na organização do trabalho em equipe (EPSJV-FIOCRUZ). No campo digital, o cenário mudou significativamente: Em junho de 2025, o Ministério da Saúde divulgou que mais de 97% das UBS já utilizam prontuário eletrônico, e quase a totalidade das unidades tem acesso à internet, o que abre espaço para telessaúde e outras soluções digitais na APS (Agência Gov). O e-SUS APS, iniciado há mais de uma década, tornou-se a principal estratégia nacional para reestruturar as informações da APS, articulando prontuário eletrônico e envio de dados ao Sistema de Informação em Saúde para APS (SISAPS). Programas como o Informatiza APS induziram municípios a informatizar UBS e qualificar a qualidade das informações enviadas, vinculando inclusive financiamento à adesão digital (veredas.org). Ao mesmo tempo, a Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 (ESD28) definiu metas claras: ampliar a informatização, integrar a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e melhorar interoperabilidade e qualidade da informação em todos os pontos de atenção – com forte ênfase na APS, por ser a porta de entrada do sistema (Biblioteca Virtual em Saúde MS). Em 2025, portanto, o país chega a um novo patamar: quase toda a APS está informatizada, mas ainda não necessariamente trabalhando com dados estruturados de forma qualificada. É exatamente aí que entra a virada deste ano. O que muda em 2025: financiamento, indicadores e obrigatoriedade de dados Nos últimos anos, o modelo de financiamento da APS passou por mudanças profundas, começando com o Previne Brasil em 2019 e, mais recentemente, com a publicação da Portaria GM/MS nº 3.493/2024, que reorganizou o cofinanciamento federal do Piso da APS em novos componentes (Conasems). A partir de 2024/2025, o cofinanciamento federal passa a ser composto por: Componente fixo – para manutenção das equipes (eSF, eAP, eSB, eMulti); Componente de vínculo e acompanhamento territorial – vinculado ao cadastro e ao acompanhamento efetivo da população pelas equipes; Componente de qualidade – atrelado ao desempenho da APS em indicadores clínicos, organizacionais e de boas práticas (Conasems). Em maio de 2025, o Ministério da Saúde apresentou novos indicadores de indução de boas práticas para APS, que compõem justamente o componente de qualidade do novo modelo de cofinanciamento. A performance das equipes nesses indicadores passa a influenciar diretamente o valor repassado aos municípios (Serviços e Informações do Brasil). Isso significa, na prática, que: sem dados bem registrados, o município perde recurso; sem informação fidedigna, a equipe não comprova o trabalho que realiza; a gestão local passa a depender de indicadores calculados a partir de dados estruturados. Além do financiamento, 2025 marca outro movimento importante:a publicação da Portaria GM/MS nº 7.639/2025, que define a obrigatoriedade de alimentação mensal e sistemática de vários bancos de dados nacionais – incluindo o Sistema de Informação para a Atenção Primária à Saúde (Siaps) e o Conjunto Mínimo de Dados (CMD) (Biblioteca Virtual em Saúde MS). Esse CMD é, basicamente, o “esqueleto” de um registro estruturado: um conjunto padronizado de campos, códigos e formatos que garante que as informações da APS possam ser: comparáveis entre municípios e estados; integradas a outros sistemas (como SIA, SIH, SCNES, RNDS); usadas em planejamento, avaliação e regulação; aproveitadas por ferramentas de análise, IA e predição de risco. Para completar, em fevereiro de 2025 o Tribunal de Contas da União (TCU) publicou acórdão determinando medidas para que o Ministério da Saúde fortaleça a governança da Estratégia de Saúde Digital, apontando fragilidades na coordenação, no monitoramento e na integração de sistemas de informação em saúde (Portal TCU). Ou seja: 2025 é o ano em que a obrigação política, técnica, financeira e legal se alinha em torno de uma mensagem clara – a APS não pode mais trabalhar com dados soltos, incompletos ou despadronizados. Por que dados estruturados viram prioridade nacional? Falar em “dados estruturados” às vezes parece algo distante da prática da UBS. Mas, na APS, isso tem implicações bem concretas. Dado estruturado é aquele registrado em campos